Crédito à habitação cresce 11,2%: o que este número diz
O crédito à habitação continua a crescer em Portugal. No final de agosto de 2026, o stock de empréstimos para habitação atingiu 119,1 mil milhões de euros, mais 1.038 milhões do que no mês anterior.
Em termos homólogos, o crescimento foi de 11,2%, a taxa mais elevada desde fevereiro de 2003. É um dado expressivo, mas exige uma leitura cuidadosa: mais crédito em circulação não significa, por si só, que esteja mais fácil obter financiamento ou comprar casa.

Mais crédito em circulação não significa mais aprovações
Os 119,1 mil milhões de euros correspondem ao montante de empréstimos para habitação que permanece no sistema bancário, e não ao valor de novos créditos contratados apenas em agosto.
O próprio Banco de Portugal calcula a variação anual com base nas transações de concessão e amortização dos empréstimos, retirando outros efeitos contabilísticos. Isto significa que o crescimento de 11,2% não deve ser interpretado como um aumento equivalente no número de famílias financiadas.
Cada pedido continua a ser analisado individualmente. Rendimentos, outros créditos, capacidade de suportar a prestação e características da operação continuam a influenciar a decisão da instituição.
Além disso, existem limites aplicáveis aos novos contratos. Na habitação própria e permanente, o rácio entre o empréstimo e o valor do imóvel não deve, em regra, ultrapassar 90%; o valor considerado é o mais baixo entre o preço de aquisição e a avaliação. A soma das prestações dos créditos do cliente não deve, em regra, exceder 50% do rendimento líquido.

A avaliação do imóvel pode mudar o financiamento disponível
Esta relação entre preço e avaliação é particularmente importante numa compra.
Um comprador pode ter rendimento suficiente para suportar determinada prestação e, ainda assim, precisar de mais capitais próprios se a avaliação bancária ficar abaixo do preço acordado com o vendedor.
Imagine-se um imóvel negociado por 250.000 euros que seja avaliado pelo banco por 230.000 euros. Para efeitos do limite de financiamento, é este valor mais baixo que passa a ser relevante.
É também por isso que pré-aprovação e aprovação final não são a mesma coisa. A pré-aprovação analisa sobretudo a situação financeira do cliente; a operação definitiva depende igualmente do imóvel e da documentação. Este tema está já desenvolvido na página Nortelar sobre avaliação bancária. 

Antes de escolher a casa, convém conhecer o orçamento real
O crescimento do mercado de crédito não altera uma regra básica: procurar casa antes de perceber a capacidade financeira real pode criar problemas numa fase mais avançada da compra.
Mais do que perguntar apenas quanto o banco poderá emprestar, interessa perceber qual a prestação confortável para o orçamento familiar, quanto capital existe para entrada e restantes despesas e que margem sobra se a avaliação não acompanhar o preço negociado.
O prazo também influencia bastante a prestação e o custo global. Atualmente, os novos contratos de crédito à habitação têm prazos máximos recomendados de 40 anos para clientes até aos 30 anos, 37 anos entre os 31 e os 35 e 35 anos acima dessa idade.
Comparar propostas apenas pela prestação mensal também pode ser insuficiente. Taxa, seguros, comissões, TAEG e custo total do crédito ajudam a perceber diferenças que podem tornar-se relevantes ao longo de muitos anos.

Para quem vende, o financiamento do comprador também faz parte do negócio
O crédito à habitação parece, à primeira vista, um assunto exclusivamente do comprador. Na prática, também pode condicionar uma venda.
Um imóvel pode receber uma boa proposta e, mesmo assim, a operação enfrentar dificuldades se o preço estiver muito acima da avaliação bancária ou se o comprador não tiver capitais próprios suficientes para cobrir a diferença.
Para o proprietário, isto reforça a importância de definir um preço sustentado, ter a documentação organizada e perceber que encontrar um interessado não é exatamente o mesmo que encontrar um comprador em condições de concluir a operação.
O crescimento do crédito pode contribuir para um mercado mais ativo, mas não elimina o risco de financiamento de cada negócio.

Um sinal de mercado, não um atalho para comprar casa
Os 11,2% mostram que o crédito à habitação está numa trajetória de forte crescimento. Não demonstram que os critérios tenham ficado mais permissivos, que todas as famílias consigam financiar valores superiores ou que a habitação se tenha tornado mais acessível.
Para quem pretende comprar, a leitura útil deste dado é outra: existe atividade no financiamento, mas cada operação continua a depender da relação entre rendimento, capitais próprios, preço, avaliação e condições bancárias.

Na Nortelar, procuramos que essa preparação aconteça antes dos compromissos mais importantes, para que a procura do imóvel seja feita com uma noção realista das condições necessárias para chegar à escritura.